Arte e Medicina

O homem sifilítico de Durero: o retrato de uma doença desconhecida

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Em 1496, quando Alberto Durero fez esta gravura (Figura 1), a Europa enfrentava uma doença que ainda não tinha nome. Ela havia surgido com violência poucos anos antes e se espalhava com uma rapidez inquietante. Ninguém conhecia sua causa, seu mecanismo de transmissão nem sua história natural. Cada povo a atribuía a outro: para os italianos, era o “mal francês”; para outros, a doença napolitana, espanhola ou polonesa. O nome sífilis só chegaria em 1530, com o poema Syphilis sive morbus gallicus, de Girolamo Fracastoro.

Nesse contexto, surgiu uma das primeiras representações conhecidas de um paciente com sífilis. A gravura em madeira, colorida posteriormente, fazia parte de um Pestblatt, uma folha impressa destinada a informar sobre uma epidemia, precursor remoto de nossas comunicações de saúde pública. Durero mostra um homem coberto de lesões cutâneas no rosto, no pescoço, nas mãos, nos braços e nas pernas, compatíveis com manifestações de sífilis secundária.

Mas a imagem não pretendia apenas mostrar a doença. Também tentava explicá-la.

Clique para visualizar maior

Sobre a cabeça do paciente aparece uma esfera celeste atravessada pelos signos do zodíaco. Em seu centro, pode-se ler “1484”, ano de uma conjunção de Júpiter e Saturno à qual foi atribuído um papel na origem da epidemia. A gravura acompanhava um texto do médico, humanista e astrólogo Theodoricus Ulsenius, convocado pelas autoridades de Nuremberg diante da propagação da nova doença (Figura 2 – abaixo, à direita). Sua interpretação reunia medicina, astrologia e tradição clássica: uma combinação que hoje parece estranha, mas que pertencia plenamente ao horizonte intelectual da medicina renascentista.

Há outro detalhe menos evidente. Para um observador do século XV, a vestimenta do enfermo permitia reconhecer imediatamente sua profissão. O enorme chapéu emplumado, a capa curta e as botas de couro identificavam um Landsknecht, um dos mercenários alemães e suíços que combateram nas guerras italianas. Muitos haviam participado das campanhas de Carlos VIII da França e, ao retornarem para o norte, contribuíram para disseminar a nova doença por diferentes regiões da Europa. A gravura representava, assim, não apenas uma vítima, mas também um dos grupos humanos contemporaneamente associados à sua propagação.

A obra é fascinante precisamente por essa sobreposição de olhares. Durero observa o corpo e registra suas lesões; Ulsenius busca a causa da doença no céu; as autoridades de Nuremberg utilizam a imprensa para alertar a população. Ciência, crença, arte e saúde pública ainda não ocupavam territórios separados.

Cinco séculos depois, sabemos que nenhuma conjunção planetária provocou aquela epidemia. Mas seria fácil demais olhar para a imagem com condescendência. O homem sifilítico conserva algo profundamente moderno: mostra o esforço de uma sociedade para compreender, representar e comunicar uma doença emergente enquanto ainda está aprendendo a nomeá-la.

 


EPÍGRAFES

Figura 1: Gravura em madeira. Primeira ilustração de um paciente com sífilis, nome ainda desconhecido para a doença. O título original era Vaticinium in Epidemicam Scabiem. A figura foi realizada por Alberto Durero (1471-1528) em agosto de 1496.

Figura 2: Imagem completa do “homem sifilítico” com os versos compostos por Theodoricus Ulsenius (1460- 1508). Na parte superior, identificam-se o nome do médico Ulsenius e o título original do folheto. (Bayerische Staats Bibliothek).

 

—

Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi

Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”