Diana de Poitiers (1499–1566) foi uma das mulheres mais fascinantes da corte francesa. Sua beleza era celebrada em toda a Europa, e sua pele intensamente pálida contribuía para construir uma imagem quase irreal, mistura de distinção, fragilidade e encanto. O que poucos suspeitavam era que essa brancura tão admirada talvez não fosse um simples dom da natureza, mas o sinal visível de um lento envenenamento.
Na monarquia francesa existia a figura da maîtresse-en-titre, a amante oficial do rei: uma posição semipública, reconhecida e carregada de influência. Essas mulheres não permaneciam nas sombras; ao contrário, ocupavam um lugar de destaque na vida política, cultural e cortesã. Diana de Poitiers foi, sem dúvida, uma das mais célebres. Órfã desde muito jovem, casou-se aos quinze anos com Luís de Brézé, um nobre trinta e nove anos mais velho. Teve com ele duas filhas e, ao ficar viúva, demonstrou notável inteligência para administrar seus bens e consolidar uma fortuna considerável.
Culta, refinada e dona de grande presença, Diana brilhou na corte até atrair a atenção de Henrique II, vinte anos mais jovem que ela. Tornando-se sua favorita, exerceu sobre o rei uma influência extraordinária. Sua posição foi tão poderosa que Catarina de Médici, a rainha, sempre a considerou uma inimiga íntima. Embora Diana não tenha tido filhos com Henrique, participou ativamente da criação dos dez filhos que o rei teve com Catarina, o que dá a medida do lugar singular que chegou a ocupar.
Sua queda foi tão brusca quanto sua ascensão. Em 1559, durante um torneio, Henrique II sofreu o célebre ferimento mortal de uma lança que atravessou seu olho e penetrou no crânio. Enquanto o rei agonizava, Catarina agiu rapidamente: proibiu Diana de se aproximar dele, expulsou-a da corte e a obrigou a devolver as joias, propriedades e presentes que havia recebido, entre eles o magnífico castelo de Chenonceau.
Mas a história de Diana não termina na política nem na intriga cortesã. Obcecada por preservar sua juventude, ela teria recorrido a um remédio tão extravagante quanto perigoso: beber uma preparação de ouro, inspirada em antigas crenças alquímicas segundo as quais esse metal nobre poderia preservar a juventude e prolongar a vida. O suposto “elixir” continha cloreto de ouro e éter dietílico. Longe de rejuvenescê-la, provavelmente a intoxicou de forma crônica. Essa intoxicação teria provocado anemia, fragilidade óssea, distúrbios digestivos e, paradoxalmente, a palidez que reforçava sua beleza singular.

Essa brancura pode ser percebida no célebre retrato atribuído a François Clouet, Uma dama em seu banho (Figura 1 – à esquerda), no qual a textura quase translúcida da figura central contrasta com a robusta vitalidade de outras mulheres presentes na cena. No quadro, uma mulher bela e viçosa exibe sua pele quase transparente e, para acentuar ainda mais esse efeito, Clouet colocou ao lado uma mulher do povo, vigorosa e de tez morena, que amamenta uma criança igualmente saudável. Ao fundo, uma dama de companhia prepara a água quente que será adicionada à banheira de Diana.
Em 1795, durante a Revolução Francesa, o túmulo de Diana foi profanado. Seus restos foram lançados em uma vala comum e parte deles dispersada com brutalidade. Muito tempo depois, em 2008, uma equipe de cientistas franceses conseguiu identificá-los e encontrou neles uma concentração de ouro cerca de quinhentas vezes superior ao normal. A descoberta confirmou, com a frieza da ciência, o que a lenda insinuava havia séculos.
Assim, a célebre palidez de Diana de Poitiers deixa de ser apenas um detalhe estético para se tornar um dado clínico. Sua beleza, celebrada como ideal de refinamento, pode ter sido também o sintoma de uma intoxicação persistente. A eterna juventude, mais uma vez, revelou-se uma promessa cara, enganosa e cruel – um velho truque da vaidade; só que, neste caso, com ouro de verdade.
EPÍGRAFE
Figura 1: Uma dama em seu banho. Atribuído a François Clouet | National Gallery of Art, Washington, DC.
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Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi
Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”