
Entre as numerosas representações renascentistas da Natividade, existe uma que costuma passar despercebida. Trata-se de uma pintura de Alessandro Bonvicino, conhecido como Moretto da Brescia (ca. 1498–1554), conservada no Museu de Santa Giulia, em Brescia, intitulada Adoração dos Pastores (Figura 1).
A cena, serena e silenciosa, parece obedecer a todos os cânones iconográficos tradicionais: Maria segura o Menino Jesus, enquanto São José permanece em atitude contemplativa. Ao fundo, insinuam-se o estábulo, o boi e o jumento, e, ao longe, distinguem-se algumas ovelhas pastando. No entanto, atrás da Virgem aparece um pastor, com a cabeça coberta por um gorro, cujo pescoço apresenta uma volumosa tumefação compatível com um bócio. Não parece tratar-se de um detalhe casual.
O aumento de volume ocupa a região anterior do pescoço e possui todas as características de um bócio. Embora alguns autores tenham sugerido que poderia corresponder a um cisto cervical, sua localização e aspecto tornam muito mais provável uma hipertrofia da tireoide. O mais notável é que Moretto não procura ocultá-la nem transformá-la em uma deformidade grotesca. O pastor conserva uma expressão serena e uma dignidade absoluta. A doença faz parte de sua identidade, mas não define a pessoa. Esse pequeno detalhe abre uma extraordinária janela para a medicina do século XVI.
Hoje sabemos que a maioria dos bócios endêmicos se deve à deficiência crônica de iodo. Durante séculos, as populações afastadas do mar e estabelecidas em regiões montanhosas consumiam alimentos pobres nesse elemento essencial para a síntese dos hormônios tireoidianos. O resultado era uma elevada prevalência de bócio, hipotireoidismo e, em suas formas mais graves, cretinismo endêmico.
Precisamente, o norte da Itália constituiu durante séculos uma das grandes áreas europeias de bócio endêmico. Os vales alpinos da Lombardia, do Piemonte, do Tirol e da Suíça foram descritos por viajantes e médicos como regiões onde os pescoços aumentados de tamanho eram tão frequentes que mal chamavam a atenção. Sob essa perspectiva, o pastor de Moretto provavelmente não representa um indivíduo excepcional, mas um camponês típico da região de Brescia.
Esse dado é especialmente interessante porque costumamos associar o Renascimento à idealização do corpo humano. No entanto, a escola lombarda desenvolveu um naturalismo particularmente atento à observação da realidade cotidiana. Em contraste com a perfeição clássica promovida em Florença e Roma, muitos pintores do norte da Itália incorporaram rostos envelhecidos, rugas e pequenas deformidades tomadas diretamente da vida real. Moretto pertence plenamente a essa tradição.
Nascido em Rovato, perto de Brescia, Alessandro Bonvicino desenvolveu quase toda a sua carreira em sua cidade natal. Recebeu forte influência da pintura veneziana (especialmente de Giorgione e Ticiano), mas criou uma linguagem própria, caracterizada pela serenidade compositiva, por uma luz suave e dourada e por figuras monumentais de intensa espiritualidade. Além disso, formou um dos grandes retratistas italianos do século XVI, Giovanni Battista Moroni, célebre pela extraordinária individualidade psicológica de seus retratos.
Nesta Natividade, essa sensibilidade atinge um grau notável. Os personagens não parecem heróis bíblicos idealizados, mas habitantes reais da zona rural lombarda. O estábulo lembra uma construção campestre contemporânea ao pintor. Os pastores vestem-se como camponeses do século XVI. Até mesmo a paisagem ao fundo reforça a sensação de uma cena cotidiana, mais do que milagrosa. O bócio participa plenamente desse programa artístico.
Não constitui uma curiosidade médica nem parece possuir um significado simbólico. Funciona, sobretudo, como um recurso de verossimilhança. O nascimento de Cristo ocorre entre pessoas reais, com as doenças e limitações próprias de qualquer comunidade humana. Em certo sentido, Moretto introduz a medicina dentro do presépio.
Essa representação tampouco foi completamente excepcional. Diversos artistas do Renascimento retrataram pessoas com bócio, especialmente nas regiões alpinas onde a doença era endêmica. Na maioria dos casos, essas alterações passam despercebidas porque foram incorporadas com absoluta naturalidade, sem intenção documental. Paradoxalmente, essas pinturas constituem hoje valiosos testemunhos epidemiológicos. Muito antes dos estudos populacionais, a arte registrou a distribuição geográfica de doenças comuns e preservou evidências visuais de uma realidade sanitária hoje praticamente desaparecida graças à suplementação de iodo e ao uso generalizado de sal iodado.
Para o médico contemporâneo, o pastor de Moretto suscita uma reflexão inevitável. Sabemos que uma simples intervenção nutricional teria provavelmente evitado aquela hipertrofia da tireoide. No entanto, para o pintor e para aqueles que contemplaram originalmente a obra, aquele pescoço aumentado não era uma raridade, mas uma característica familiar da paisagem humana. Talvez aí resida o maior interesse desta pintura.
Ela não mostra uma doença extraordinária nem um caso espetacular. Representa a normalidade de uma época. Recorda-nos que muitas patologias que hoje consideramos excepcionais fizeram parte da vida cotidiana durante séculos e que a arte, além de expressar ideais estéticos e religiosos, constitui também um extraordinário arquivo da história natural das doenças.
No pescoço discretamente deformado de um humilde pastor lombardo sobrevivem, quinhentos anos depois, o talento de observação de Moretto da Brescia e a silenciosa lembrança de uma das grandes endemias nutricionais da Europa. Creio que essa seja, precisamente, a razão pela qual esse pequeno detalhe continua a chamar nossa atenção muito tempo depois de ter deixado de ser uma realidade clínica habitual.
EPÍGRAFE
Figura 1: Adoração dos Pastores. Alessandro Bonvicino, ca. 1525. Museu de Santa Giulia, Brescia.
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Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi
Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”