Arte e Medicina

O tórax escavado dos santos de José de Ribera

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Na pintura do espanhol José de Ribera, os corpos raramente são perfeitos. São corpos envelhecidos, emagrecidos, castigados pelo tempo, pela pobreza ou pelo sofrimento. A pele cai sobre os ossos, as rugas atravessam os rostos e as mãos mostram unhas sujas e dedos deformados. Ribera não parece interessado em corrigir a natureza: quer mostrá-la. E essa extraordinária fidelidade ao corpo humano permitiu reconhecer, quatro séculos depois, doenças reais em alguns de seus personagens. Entre elas, uma deformidade peculiar da parede torácica: o pectus excavatum.

José de Ribera nasceu em Játiva, Valência, em 1591, mas desenvolveu praticamente toda a sua carreira na Itália. Ali, seu nome foi italianizado para Jusepe Ribera e ele ficou conhecido pelo apelido de Lo Spagnoletto (O Espanholzinho), devido à sua baixa estatura e ao fato de reivindicar suas origens, sendo comum que assinasse suas obras como espanhol, valenciano e setabense. Instalado finalmente em Nápoles, então sob domínio espanhol, tornou-se um dos grandes representantes do barroco europeu. Sua pintura recebeu uma influência decisiva de Caravaggio, particularmente perceptível no uso dramático do claro-escuro: figuras intensamente iluminadas emergem de fundos quase negros, criando essa modalidade extrema de contraste que conhecemos como tenebrismo. Mas Ribera levou ainda mais longe outro traço do caravaggismo: o naturalismo.

Seus santos não possuem a beleza idealizada de outras tradições pictóricas. São anciãos magros e desalinhados, homens cuja espiritualidade parece tornar-se visível precisamente por meio de um corpo maltratado. Essa fascinação explica obras como O Patizambo, em que representou uma deformidade das extremidades; A Mulher Barbuda, extraordinário retrato de uma mulher com hirsutismo acentuado; ou seus desenhos de cabeças com grandes bócios. A doença e a anomalia física fazem, portanto, parte reconhecível de seu universo visual.

Há três pinturas de Ribera nas quais se observa uma depressão da parede anterior do tórax compatível com pectus excavatum: uma de São Jerônimo, de 1637 (Figura 1), conservada na Galleria Doria Pamphilj, em Roma, e duas representações de Santo Onofre, uma realizada entre 1625 e 1629 (Figura 2), atualmente na National Gallery de Dublin, e outra de 1642 (Figura 3), pertencente ao Museum of Fine Arts de Boston.

O pectus excavatum, também denominado tórax em funil, é uma deformidade caracterizada pela depressão posterior do esterno e das cartilagens costais anteriores. Sua expressão clínica é muito variável: desde uma discreta concavidade estética até deformidades muito mais acentuadas.

Nos personagens de Ribera, o afundamento central do tórax é especialmente visível porque ambos os santos aparecem seminus e extraordinariamente magros. As costelas, clavículas e músculos ficam expostos sob uma pele quase sem tecido adiposo. Poderia-se pensar, por isso, que não existe uma verdadeira deformidade, mas simplesmente um tórax extremamente emagrecido. Porém, Ribera pintou muitas outras figuras igualmente cadavéricas (incluindo outros São Jerônimos e Santo Onofres) sem representar nelas uma depressão semelhante. A configuração torácica particular dessas três obras dificilmente parece um acidente. Por que ele a pintou?

Uma possibilidade seria que Ribera conhecesse a existência anatômica do pectus excavatum. Leonardo da Vinci havia realizado, mais de um século antes, desenhos anatômicos que foram interpretados como as primeiras representações conhecidas dessa deformidade. Além disso, por volta do final do século XVI, Johannes Schenck e Caspar Bauhin haviam realizado suas primeiras descrições médicas. No entanto, não existem provas de que Ribera conhecesse esses trabalhos.

Também poderia tratar-se de um recurso simbólico. Desde a Idade Média, deformidades e doenças haviam sido utilizadas, em algumas ocasiões, para reforçar visualmente o sofrimento dos santos e mártires. Mas essa explicação também não é completamente satisfatória. Nem São Jerônimo nem Santo Onofre morreram martirizados, e Ribera os representou outras vezes sem essa anomalia. Resta então uma terceira hipótese, talvez a mais atraente: que os modelos realmente tivessem pectus excavatum.

Ribera pode ter procurado deliberadamente anciãos pobres, extremamente magros e com deformidades físicas que correspondessem ao tipo humano de que precisava para seus quadros. Um tórax afundado proporcionava, além disso, uma superfície extraordinária para sua pintura. A depressão esternal, as costelas proeminentes e os relevos musculares permitiam que a luz lateral produzisse sombras profundas, transformando a anatomia em claro-escuro. A doença, nesse caso, não seria simplesmente algo que Ribera registrou. Tornar-se-ia também matéria pictórica.

Nunca poderemos saber se aqueles homens realmente sofriam de pectus excavatum ou se o pintor modificou deliberadamente seus corpos. O diagnóstico retrospectivo baseado em uma pintura exige sempre prudência: uma imagem artística não é uma fotografia nem, muito menos, um estudo radiológico.

Mas talvez essa incerteza seja precisamente o mais interessante. Porque, em Ribera, medicina e pintura acabam se encontrando em um mesmo lugar: o corpo real.

Enquanto outros artistas corrigiram suas imperfeições para aproximá-lo de um ideal de beleza, Ribera fez exatamente o contrário. Olhou para as rugas, as deformidades, a velhice e a doença sem desviar o olhar. E, por meio da luz, conseguiu algo paradoxal: transformar aqueles corpos deteriorados em imagens de extraordinária dignidade. Em seus santos, até mesmo um esterno afundado podia participar da beleza.

 


EPÍGRAFES

Figura 1: São Jerônimo e a Trombeta do Juízo Final. José de Ribera (1637). Galleria Doria Pamphilj, Roma.
Figura 2: Santo Onofre. José de Ribera (1625-1629). National Gallery, Dublin.
Figura 3: Santo Onofre. José de Ribera (1642). Museum of Fine Arts, Boston.

 

—

Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi

Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”