São Valentim é hoje, no imaginário global, o santo dos apaixonados, mas durante séculos foi, sobretudo, um mártir taumaturgo associado à cura de doenças graves e, em particular, padroeiro das pessoas com epilepsia. Essa dupla dimensão (religiosa e médica) oferece uma perspectiva interessante sobre a forma como as sociedades pré-modernas compreenderam a epilepsia e elaboraram respostas simbólicas diante de uma patologia crônica, estigmatizada e pouco compreendida.
As fontes litúrgicas antigas são sucintas. O Martirológio Romano registra pelo menos dois mártires homônimos celebrados em 14 de fevereiro: Valentim, sacerdote na Via Flamínia (Roma), e Valentim, bispo de Interamna (atual Terni), ambos do século III e executados sob o imperador Cláudio II. Com o passar do tempo, a tradição hagiográfica fundiu essas figuras em uma única personagem, à qual foi atribuído um perfil biográfico mais rico e lendário: um sacerdote (por vezes também apresentado como médico) que realiza curas milagrosas, converte famílias inteiras e é finalmente decapitado por permanecer fiel à sua fé e por celebrar casamentos cristãos em segredo.
Nessa narrativa ampliada, São Valentim destaca-se como taumaturgo. Um dos motivos hagiográficos recorrentes é a cura de Júlia, filha cega de um funcionário romano, a quem o santo restitui a visão e, com isso, provoca a conversão de sua família. Também lhe são atribuídas “curas de enfermos terminais” sem especificação diagnóstica, refletindo uma medicina de fronteira, na qual os limites entre a arte médica, o cuidado pastoral e o milagre eram difusos. Não surpreende, portanto, que diferentes tradições locais tenham reforçado a imagem de Valentim como uma figura próxima do doente, intercessor diante de quadros para os quais a terapêutica da época oferecia pouco ou nenhum recurso.
A relação específica com a epilepsia baseia-se nesse contexto. Na Europa medieval e no início da Idade Moderna, a epilepsia era percebida como uma doença incurável e enigmática, frequentemente interpretada como sinal de influência demoníaca ou castigo divino. A denominação “doença da queda” expressa a impressão de um mal súbito que derruba o paciente; não é por acaso que, em diversas línguas vernáculas, essa enfermidade passou a ser associada nominalmente a São Valentim. Em francês, falava-se da “doença de São Valentim” (la maladie de Saint Valentin); em holandês, sintvelten chegou a ser utilizado como sinônimo de epilepsia; e, no mundo germânico, surgiram expressões que descreviam a epilepsia como a “praga de São Valentim”. O santo tornava-se, assim, uma referência indispensável para aqueles que buscavam uma mediação sobrenatural diante de um transtorno que escapava ao entendimento médico.
No âmbito da devoção popular, essa associação traduziu-se em práticas concretas. Há registros de peregrinações a santuários dedicados a São Valentim — especialmente na região franco-alemã e no norte da Itália — onde se pedia sua intercessão por crianças e adultos que sofriam crises epilépticas. Igrejas e mosteiros funcionavam como espaços de acolhimento que combinavam cuidado espiritual, suporte social e, em alguns casos, formas rudimentares de assistência à saúde. A iconografia medieval e barroca acompanha esse desenvolvimento: em diversas representações, São Valentim aparece ao lado de uma criança deitada a seus pés ou realizando um exorcismo sobre um enfermo, motivos que a tradição posteriormente identificou com a epilepsia. O gesto de “erguer” o paciente ou de tocar sua cabeça revela-se particularmente significativo quando interpretado à luz do impacto social das crises convulsivas.
O outro grande registro simbólico ligado a São Valentim é, naturalmente, o amor. Essa dimensão, entretanto, é tardia. Ela não deriva diretamente da Roma pagã, mas consolida-se na literatura cortesã medieval, especialmente na obra de Geoffrey Chaucer, que associa o Dia de São Valentim ao emparelhamento dos casais e aos rituais amorosos. A figura do mártir que, segundo a lenda, teria escrito uma carta para Júlia assinando “do seu Valentim” pouco antes de sua execução transforma-se gradualmente em arquétipo do amor fiel. A institucionalização moderna do “Dia de São Valentim” acaba por eclipsar, na cultura popular, seu antigo papel como padroeiro das pessoas com epilepsia.
A reforma do calendário litúrgico em 1969, ao retirar São Valentim da lista de festas universais devido à dificuldade de distinguir historicamente os diversos mártires homônimos, reforçou o caráter mais local e devocional de seu culto. Paradoxalmente, enquanto seu perfil litúrgico se atenuava, a indústria cultural e o mercado global expandiam a faceta romântica do santo.
Para a história da medicina, São Valentim constitui um exemplo ilustrativo de como uma doença neurológica grave, carregada de estigma e temor, foi ressignificada por meio de um conjunto de narrativas, imagens e práticas rituais. A epilepsia não era enfrentada apenas com recursos médicos limitados, mas também com dispositivos simbólicos que ofereciam sentido e pertencimento aos pacientes e às suas famílias. Atualmente, algumas associações de pacientes recuperam conscientemente essa tradição ao apresentar São Valentim como “padroeiro das pessoas com epilepsia”, não mais como substituto da terapêutica, mas como um referencial cultural para combater o estigma e promover uma visão mais humana sobre aqueles que convivem com essa condição.
EPÍGRAFE
Figura 1: São Valentim. Leonhard Beck, 1510. Coleção da Fortaleza de Coburgo, Alemanha. Aos seus pés, um paciente sofrendo uma crise epiléptica.
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Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi
Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”