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No Outubro Rosa, uma mudança importante no acesso à mamografia digital

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O Outubro Rosa começa este ano com uma notícia importante para quem atua na saúde da mama: a partir de outubro, a cobertura da mamografia digital pelos planos de saúde deixa de ter uma restrição etária.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aprovou a retirada da Diretriz de Utilização que restringia a cobertura obrigatória da mamografia digital às mulheres de 40 a 69 anos. A nova regra permite que o exame tenha cobertura quando houver indicação médica, sem a antiga limitação de idade.

À primeira vista, pode parecer apenas uma mudança administrativa. Porém, para quem trabalha diariamente com diagnóstico por imagem das mamas, a decisão representa algo maior: uma atualização das regras de acesso à realidade da medicina praticada atualmente.

“Manter uma regra de cobertura especificamente vinculada à expressão ‘mamografia digital’ acabava criando uma limitação que já não correspondia plenamente à realidade tecnológica dos serviços de diagnóstico por imagem”, explica a Dra. Mariah Wanderley, coordenadora do Grupo de Estudos de Mama (GEMA) da Sociedade Paulista de Radiologia (SPR).

 

Mas o que significa, na prática, não ter mais uma barreira de idade?

A mamografia passou por uma importante evolução tecnológica. Dos sistemas analógicos, com aquisição e revelação em filme, passou pelos sistemas computadorizados até chegar à tecnologia digital, hoje amplamente incorporada à prática radiológica.

As próprias recomendações da Comissão Nacional de Mamografia, formada por representantes do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e da FEBRASGO, orientam o rastreamento preferencialmente com mamografia digital.

Outro ponto especialmente importante é não confundir rastreamento com investigação diagnóstica. Dra. Mariah explica: “No rastreamento, estamos falando de mulheres assintomáticas, que realizam exames periodicamente com o objetivo de identificar um eventual câncer em uma fase inicial”.

Para mulheres de risco habitual, as recomendações das sociedades médicas brasileiras indicam mamografia anual dos 40 aos 74 anos, preferencialmente com tecnologia digital. A partir dos 75 anos, a continuidade do rastreamento deve ser individualizada, levando em conta condições de saúde, comorbidades e expectativa de vida.

“Esse ponto é particularmente importante porque caminhamos cada vez mais para um rastreamento personalizado. A idade cronológica, isoladamente, não deveria ser o único critério para definir quem pode ou não se beneficiar de uma mamografia”, destaca Dra. Mariah.

Existem também situações que fogem desse cenário. Uma mulher mais jovem pode apresentar um risco aumentado para câncer de mama em razão de uma mutação genética, história familiar importante ou outros fatores. Nesses casos, a estratégia de rastreamento pode ser diferente, inclusive com início mais precoce e associação de outros métodos de imagem, como a ressonância magnética.

Da mesma forma, uma mulher fora da faixa etária habitual de rastreamento pode apresentar um nódulo palpável, alteração da pele, secreção pelo mamilo ou outra manifestação clínica que precise ser investigada. Nesse caso, estamos falando de diagnóstico, e não de rastreamento populacional.

“Nessas situações, a mamografia, assim como outros métodos de imagem das mamas, pode ser indicada para investigar aquela alteração específica. E essa indicação diagnóstica não deve ficar condicionada às mesmas faixas etárias utilizadas para definir estratégias de rastreamento populacional”, explica Dra. Mariah.

Não faria sentido que a investigação de uma alteração suspeita ficasse limitada por uma faixa etária definida para pessoas assintomáticas. É justamente nesse contexto que a avaliação clínica individual ganha importância.

 

Mais acesso não significa menos critério

Talvez essa seja uma das principais reflexões que se pode extrair da mudança da ANS. Ampliar a cobertura não significa abandonar critérios médicos, mas permitir que eles tenham mais espaço: “A medicina caminha cada vez mais para estratégias individualizadas; a idade continua sendo uma informação extremamente relevante, mas não deve ser necessariamente o único elemento considerado”, afirma Dra. Mariah.

Histórico familiar, fatores de risco, antecedentes pessoais, sintomas, achados clínicos, características individuais e, naturalmente, a avaliação do médico assistente devem fazer parte dessa análise.

A retirada da restrição de idade permite, portanto, que a indicação do exame seja considerada de maneira mais individualizada, sem que uma regra administrativa impeça o acesso à tecnologia quando ela é clinicamente necessária.

 

Duas formas complementares de cuidar da saúde

No Outubro Rosa, a mensagem também passa pela importância de combinar rastreamento e cuidados com a saúde ao longo da vida.

“Se eu pudesse deixar duas mensagens neste Outubro Rosa, seriam estas: não deixe de realizar o seu rastreamento mamográfico e cuide com carinho dos seus hábitos de vida. São duas formas diferentes, mas complementares, de cuidar hoje da sua saúde e também do seu futuro”, ressalta Dra. Mariah.

A mamografia tem um papel fundamental no diagnóstico precoce. Para as mulheres de risco habitual, o rastreamento mamográfico anual a partir dos 40 anos é uma das principais estratégias para identificar o câncer de mama em fases iniciais, muitas vezes antes mesmo que ele provoque qualquer sintoma.

O diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e, em muitos casos, permitir abordagens menos extensas. Ao mesmo tempo, não é possível falar de cuidado com a saúde da mama sem considerar os hábitos de vida. Manter um peso adequado, praticar atividade física regularmente e limitar o consumo de bebidas alcoólicas são algumas das medidas associadas à redução do risco de câncer de mama.

Mas existe ainda outra razão para cuidar desses hábitos ao longo da vida: construir uma espécie de “reserva de saúde”. “Se em algum momento for necessário enfrentar uma doença e passar por uma cirurgia ou outro tratamento, chegar a esse momento com uma boa condição de saúde, força muscular e capacidade funcional também pode contribuir para uma melhor recuperação e para atravessar esse período com mais disposição”, explica.

O câncer de mama é uma doença multifatorial, e não é possível eliminar completamente o risco. É possível, porém, reduzir alguns fatores modificáveis e aumentar as chances de identificar a doença precocemente. “É essa combinação que, para mim, traduz o verdadeiro sentido do Outubro Rosa: cuidar da saúde hoje pensando também no futuro.”