Quando iniciou sua residência em Radiologia no Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (INRAD – HCFMUSP), Dr. Mateus Esmeraldo dificilmente imaginava que, poucos anos depois, lideraria um artigo estampado na capa da RadioGraphics, uma das publicações mais respeitadas da radiologia mundial.
A conquista veio na edição de abril de 2026, com um artigo dedicado ao Doppler transcraniano com imagem (TCDi), técnica que permite avaliar vasos intracranianos e determinadas estruturas cerebrais em tempo real por meio da ultrassonografia. Mais do que o reconhecimento individual, o trabalho simboliza a força da formação acadêmica brasileira e o potencial da colaboração entre diferentes instituições. “O artigo busca aproximar os radiologistas de uma técnica que ainda é pouco utilizada, apesar do enorme potencial clínico e dos avanços tecnológicos que ocorreram nos últimos anos”, explica o pesquisador.
O projeto começou a tomar forma em 2024, a partir da iniciativa de desenvolver um trabalho para a Radiological Society of North America (RSNA). A pesquisa reuniu especialistas do INRAD e do Instituto do Coração (InCor), incluindo o Dr. Emanoel Ribeiro de Melo, referência nacional no método, além da Dra. Andrea Cavalanti e da Dra. Cristina Chammas, que tiveram papel fundamental na coordenação e orientação do projeto.
Segundo Mateus, o diferencial do trabalho foi reunir, de forma organizada e prática, conhecimentos que estavam dispersos em uma literatura extensa e heterogênea. “Produzir esse artigo exigiu uma revisão muito cuidadosa. Os protocolos, os valores de referência e até mesmo as indicações variam bastante entre os estudos disponíveis. Nosso objetivo foi consolidar essas informações e apresentar o método sob a perspectiva do radiologista”, afirma.
Formação brasileira como diferencial
Um dos pontos destacados pelo autor é a qualidade da formação em ultrassonografia oferecida por centros brasileiros de excelência. Diferentemente do que ocorre em muitos serviços norte-americanos, onde a aquisição das imagens costuma ser realizada por sonografistas, no Brasil os próprios radiologistas participam ativamente de todas as etapas do exame.
Essa experiência prática contribui para uma compreensão aprofundada do método e, consequentemente, para o desenvolvimento de pesquisas com forte aplicação clínica.
Durante o período em que atuou como assistente nos setores de ultrassonografia do INRAD e do InCor, Mateus participou diretamente da implementação e expansão do Doppler transcraniano na rotina assistencial, experiência que serviu de base para o artigo publicado.
Reconhecimento internacional
A repercussão do trabalho ultrapassou as páginas da revista. De acordo com o pesquisador, o artigo alcançou níveis de engajamento próximos ao percentil 95 nas métricas de compartilhamento científico e já despertou o interesse de grupos da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil.
“Recebemos contatos de pesquisadores interessados em colaborar ou replicar o método. Isso demonstra que o tema tem relevância internacional e ajuda a posicionar o Brasil em um papel de liderança nessa área”, afirma.
A publicação também evidencia o potencial de colaboração entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Entre os coautores está o Dr. Colbey Freeman, da Universidade da Pensilvânia, que contribuiu especialmente nos tópicos relacionados ao uso de contraste em ultrassonografia.
Novos desafios em Stanford
Após concluir a residência e atuar como assistente no INRAD e no InCor, Mateus iniciou um pós-doutorado em neurorradiologia na Stanford University, uma das instituições acadêmicas mais prestigiadas do mundo. Atualmente, desenvolve pesquisas envolvendo inteligência artificial aplicada à detecção de lesões cerebrais sutis relacionadas à epilepsia, além de estudar a integração entre diferentes modalidades de imagem e modelos avançados de linguagem voltados à radiologia.
Em julho de 2026, iniciará um fellowship clínico em Radiologia Pediátrica na instituição, etapa que ampliará sua experiência com ultrassonografia transcraniana em crianças e recém-nascidos.
Apesar da trajetória internacional, o pesquisador faz questão de manter os laços com os grupos brasileiros que contribuíram para sua formação. “Tenho como objetivo continuar colaborando com colegas do Brasil e desenvolver projetos conjuntos. Acredito que podemos seguir ampliando a participação brasileira em temas de fronteira e fortalecendo a presença do país no cenário científico internacional”, afirma.
A capa da RadioGraphics representa um marco importante nessa trajetória, mas, para Mateus, o reconhecimento também evidencia a qualidade da pesquisa desenvolvida nos serviços brasileiros. “Esse trabalho é resultado de um esforço coletivo. É gratificante ver o conhecimento produzido aqui alcançando repercussão mundial e contribuindo para o avanço da radiologia.”