O monóxido de carbono – também denominado óxido de carbono, gás carbonoso ou anidrido carbonoso (estes dois últimos hoje quase em desuso) – é um gás incolor, inodoro e altamente tóxico, capaz de provocar a morte quando inalado em concentrações elevadas. É produzido pela combustão incompleta de diversas substâncias, entre elas gás, gasolina, querosene, carvão, petróleo, tabaco ou madeira.
Chaminés, caldeiras, aquecedores, esquentadores de água e diversos aparelhos domésticos que utilizam combustíveis – como estufas, fogões ou fornos – podem gerar monóxido de carbono quando funcionam de maneira defeituosa ou com ventilação inadequada. Veículos com o motor ligado, especialmente em espaços fechados, constituem outra fonte frequente de exposição.
Entre os numerosos sinais clínicos da intoxicação por monóxido de carbono, há um particularmente característico e chamativo que, por sua visibilidade, ficou registrado em múltiplas obras de arte. O monóxido de carbono possui afinidade extraordinariamente alta pela hemoglobina dos glóbulos vermelhos. Ao se ligar a ela, forma carboxiemoglobina, o que não apenas impede o transporte adequado de oxigênio, como também modifica a coloração do sangue, conferindo-lhe um tom rutilante, entre o rosa-cereja e o carmim. Essa alteração se traduz em uma coloração rosada dos tecidos, de modo que o indivíduo com intoxicação aguda adquire um aspecto incomumente corado, cuja intensidade costuma correlacionar-se com a gravidade do comprometimento clínico.
Numerosos artistas, seguramente sem conhecer o mecanismo fisiopatológico subjacente, plasmaram em suas obras figuras humanas que parecem exibir os traços característicos dessa intoxicação, quase sempre em ambientes fechados e aquecidos.
Entre 1612 e 1613, Peter Paul Rubens pintou Dois meninos dormindo (Figura 1, à esquerda), utilizando provavelmente como modelos Clara e Philip, filhos de seu irmão mais velho. O fato de as crianças aparecerem cobertas com um casaco sugere um clima frio e torna verossímil a presença de algum sistema de aquecimento doméstico. Essa fonte de calor – possivelmente defeituosa – poderia explicar a chamativa rubicundez de suas bochechas. Estudos radiográficos da obra revelaram, além disso, que originalmente o menino situado à esquerda estava acordado e olhando para a frente, o que acrescenta um matiz inquietante à cena.
O Menino dormindo (Figura 2, à direita), do pintor barroco italiano Bernardo Strozzi, guarda notável semelhança com as figuras infantis de Rubens. O menino, mergulhado em sono profundo, apresenta também uma coloração excessivamente rosada nas bochechas.
Cornelis Bisschop (Figura 3, abaixo) e Johannes Verspronck (Figura 4, abaixo) abordaram um motivo semelhante: uma criança – ou, no caso de Verspronck, uma menina – sentada em uma cadeirinha alta para comer, com uma fonte de aquecimento incorporada. Embora o torpor possa ser atribuído a uma refeição abundante, é tentador imaginar que o verdadeiro responsável pelo sono profundo tenha sido a exposição ao monóxido de carbono. Em ambos os casos, a expressão sonolenta e o rubor intenso do rosto reforçam essa hipótese.
Esse tipo de cena parece prolongar-se em A espera. Uma lareira inglesa (Figura 5, abaixo), de Ford Madox Brown, pintada durante a Guerra da Crimeia. A obra mostra uma jovem mulher que costura enquanto segura a filha diante de uma lareira acesa. O avermelhamento de seus rostos pode ser interpretado como efeito do calor imediato ou, sob um olhar médico retrospectivo, como uma alusão sutil à exposição crônica às emanações do monóxido de carbono.
Essas imagens, produzidas muito antes de o monóxido de carbono ser identificado como agente tóxico, funcionam hoje como um arquivo involuntário da doença. A arte se adianta à medicina: observa e registra aquilo que a ciência levará séculos para nomear. O rubor, culturalmente associado à saúde e à vitalidade, revela-se aqui como máscara da hipóxia, como rosto amável de um processo potencialmente letal. Talvez aí resida a força mais profunda dessas obras: em nos lembrar que até mesmo o calor do lar — símbolo de abrigo e segurança — pode transformar-se em uma ameaça invisível, e que aprender a olhar continua sendo, também na medicina, uma forma essencial de prevenção.
EPÍGRAFES
- Figura 1: “Dois meninos dormindo”. Peter Paul Rubens (1613). National Museum of Western Art, Tóquio, Japão.
- Figura 2: “Menino dormindo”. Bernardo Strozzi. Residenzgalerie Salzburg, Salzburgo, Áustria.
- Figura 3: “Menino adormecido”. Cornelis Bisschop (1607).
- Figura 4: “Menina dormindo em uma cadeira alta”. Johannes Verspronck (1654).
- Figura 5: “A espera. Uma lareira inglesa”. Ford Madox Brown (1855). Walker Art Gallery, Liverpool, Inglaterra.
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Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi
Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”


