Arte e Medicina

John Bellany e seu transplante de fígado

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A história de vida do pintor escocês John Bellany oferece uma perspectiva particularmente clara sobre a relação entre a criação artística e a doença. Isso se deve não tanto ao drama de sua biografia — marcada pelo alcoolismo, perdas e fragilidade física — mas sim à maneira como seu corpo debilitado se tornou, em um momento crucial, o próprio tema e força motriz de sua obra.

Bellany vinha de uma cultura marítima austera, onde o trabalho, o risco e a morte faziam parte da paisagem cotidiana. Esse mundo aparece desde cedo em sua pintura, mas não como uma mera evocação da vida diária: o mar, os corpos e os animais já funcionam como símbolos de uma profunda tensão existencial. Ao longo dos anos, e especialmente após sua separação na década de 1970, sua linguagem artística tornou-se mais violenta e expressionista, carregada de signos, feridas e narrativas fragmentadas. O corpo passou a ocupar um lugar central, não como um ideal estético, mas como um território de conflito.

O ponto de virada ocorreu em 1984, quando ele foi diagnosticado com doença hepática avançada, consequência do alcoolismo prolongado. A partir desse momento, a doença deixou de ser um pano de fundo biográfico e tornou-se uma experiência radical. Estar gravemente doente não é apenas sofrer danos orgânicos: é suportar uma ruptura biográfica, uma suspensão da vida como era conhecida. A identidade se fragmenta, o tempo se torna incerto e o corpo — antes silencioso — afirma sua presença com uma brutalidade crua.

Em 1988, Bellany foi submetido a um transplante de fígado, um procedimento que na época ainda era quase experimental, no Hospital Addenbrooke’s em Cambridge. O cirurgião foi Roy Calne, que havia realizado o primeiro transplante de fígado na Europa 20 anos antes.

O que é notável não é apenas que ele tenha sobrevivido ao transplante, mas que tenha começado a pintar poucas horas após a cirurgia. Esse gesto tem um valor que transcende o anedótico: para Bellany, pintar não era um passatempo ou terapia ocupacional, mas um ato de afirmação ontológica. Pintar era continuar a ser.

Durante sua hospitalização e convalescença, ele criou retratos, autorretratos, desenhos e aquarelas que acabaram por cobrir as paredes de seu quarto. Essas obras, conhecidas como a “Série Addenbrooke” (Figuras 1 a 5), documentam de forma crua as vicissitudes do corpo transplantado: dor intensa, fraqueza extrema, o medo da morte, mas também o lento reaparecimento do desejo e uma esperança cautelosa. O artista observa a si mesmo como paciente, mas também como sujeito que resiste a ser reduzido a esse papel.

 

De uma perspectiva médico-humanista, essas imagens constituem um exemplo eloquente de como a arte pode funcionar como um dispositivo para o processamento simbólico da doença. Ao objetificar sua experiência em imagens, Bellany consegue se distanciar, narrar a si mesmo, reconhecer a si mesmo. O corpo cirurgicamente alterado deixa de ser meramente um corpo danificado e se torna um corpo imbuído de significado. O ato criativo não elimina o sofrimento, mas o transforma: torna-o comunicável, pensável, seu.

Bellany viveu por mais alguns anos após o transplante, enfrentou outras doenças e faleceu em 2013. No entanto, seu legado mais poderoso talvez resida não apenas em seu lugar na história da arte contemporânea, mas também em ter demonstrado — com um radicalismo raro — que a criação artística pode ser, no contexto de uma doença grave, uma forma de continuidade identitária. Não uma fuga, mas uma maneira de continuar a habitar o mundo quando o corpo parece nos expulsar dele.

Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi

Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia

O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”