Arte e Medicina

O nascimento de uma identidade profissional

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Henry VIII and the Barber-SurgeonsEm 1540, na Inglaterra de Henrique VIII, ocorreu um fato que, sob sua aparência administrativa, encerra uma mudança profunda na história da medicina: a união entre barbeiros e cirurgiões em uma única corporação. O quadro Henry VIII and the Barber-Surgeons, atribuído a Hans Holbein, o Jovem, não apenas celebra esse acordo. Faz algo mais ousado: representa, pela primeira vez, os médicos como grupo, como um corpo profissional com identidade própria.

Até então, os retratos coletivos eram patrimônio da realeza ou da aristocracia. Aqui surge outra lógica: homens reunidos não por linhagem, mas por ofício. É um gesto fundacional, quase moderno. Mas basta deter-se alguns segundos na cena para perceber que essa modernidade nasce condicionada. No centro, dominando todo o espaço pictórico, está o rei, monumental, desproporcional, quase fora de escala. Ao seu redor, ajoelhados, os médicos e cirurgiões recebem o gesto simbólico do poder.

A imagem é eloquente: a profissão médica emerge, mas o faz subordinada. Não é casual. Na Inglaterra posterior à ruptura com Roma, o monarca não era apenas autoridade política, mas também uma figura quase sagrada, investida de uma dimensão que tangenciava o divino. A medicina, nesse contexto, organiza-se sob sua tutela.

A união entre barbeiros e cirurgiões responde a uma necessidade concreta. Ambos os grupos compartilhavam práticas (sangrias, extrações, intervenções) e competiam em um terreno pouco regulamentado. O Ato de 1540 não apenas organiza essa sobreposição, mas introduz um elemento decisivo: a autorização para dissecar corpos de condenados executados. É um detalhe aparentemente técnico, mas que, na realidade, marca um ponto de inflexão: sem dissecação não há anatomia sistemática, e sem anatomia não há cirurgia moderna.

Holbein, com sua precisão característica, evita qualquer idealização. Os rostos são concretos, individuais, até ásperos. Entre eles destaca-se Thomas Vicary, receptor do documento real, cuja trajetória ilustra a lógica da ascensão profissional na época: do exercício periférico ao centro do poder graças ao favor do rei. Ao seu lado aparecem médicos universitários, como John Chambre ou William Butts, sinalizando uma hierarquia interna que antecipa divisões que ainda persistem.

No entanto, o mais inquietante não é a estrutura, mas a atmosfera. Todos os personagens parecem orientados para o rei, quase absorvidos por sua presença. Não é difícil imaginar o clima de dependência e temor em que exerciam sua profissão. Enfrentar esse poder podia ter consequências que ultrapassavam o âmbito profissional.

Vista a partir de hoje, a cena conserva uma atualidade incômoda. É, provavelmente, a primeira representação de uma equipe médica como tal, mas também um lembrete de que a medicina nunca foi completamente autônoma. Mudam os contextos, os atores e as formas, mas a tensão entre conhecimento, prática e poder persiste. Talvez por isso essa pintura, mais do que um documento do passado, continue funcionando como um espelho.


EPÍGRAFE

Figura 1: Henry VIII and the Barber-Surgeons. Hans Holbein, o Jovem, 1543. Worshipful Company of Barbers, Londres.

Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi

Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”