
Em 1951, o muralista mexicano Diego Rivera criou o afresco intitulado “O Desembarque dos Espanhóis”, atualmente localizado no Palácio Nacional da Cidade do México (Figura 1). Esta obra constitui uma reinterpretação historiográfica do evento ocorrido em 22 de abril de 1519, Quinta-feira Santa, data que marca o início da conquista. Contudo, a representação não é neutra; ela é imbuída da forte intenção política do artista e do espírito indigenista de meados do século XX. Rivera se afasta deliberadamente da iconografia clássica que glorifica o conquistador, optando, em vez disso, por uma desconstrução visual do mito heroico.
Na composição, Hernán Cortés é retratado em duas instâncias: cobrando impostos no centro (Figura 2) e evangelizando através da coerção da espada no canto superior esquerdo (Figura 3). Longe da majestade renascentista, Rivera nos apresenta um homem biologicamente debilitado, decrépito e visivelmente doente.
Essa caracterização não é arbitrária. Ela se baseia em uma descoberta científica contemporânea à criação do mural: a exumação dos restos mortais de Cortés em 1946. Estudos antropológicos da época sugeriram a presença de marcas ósseas compatíveis com sífilis terciária. Com base nessa evidência paleopatológica, Rivera “infecta” sua tela, usando a doença como metáfora política: o grande conquistador não é derrotado por exércitos inimigos, mas degradado pelo Treponema pallidum, consequência de seus hábitos amorosos desordenados.
De uma perspectiva médica, o afresco oferece um compêndio detalhado de sinais clínicos compatíveis com o estágio terciário da sífilis, uma fase que, na história natural da doença não tratada, se manifesta em aproximadamente 30% dos pacientes entre 10 e 40 anos após a infecção primária.
O rosto de Cortés exibe uma deformidade nasal que o texto original descreve coloquialmente como um “nariz de porco”. Em termos acadêmicos, isso corresponde à destruição do septo osteocartilaginoso causada por gomas sifilíticas infiltrativas. Essa lesão granulomatosa destrutiva frequentemente resulta no clássico “nariz em sela”, uma marca indelével da sífilis avançada.
A representação dos membros inferiores é igualmente significativa. Observam-se joelhos inchados e deformados. Essas características são consistentes com sinovite crônica ou, mais especificamente, com artropatia neuropática de Charcot. Essa condição, classicamente descrita em tabes dorsalis (neurossífilis), envolve a destruição progressiva das articulações devido à perda da propriocepção e da inervação trófica. Rivera captura com precisão o derrame articular e a desorganização arquitetônica da articulação.
É imprescindível lembrar que os eventos de 1519 são anteriores em séculos ao advento da era dos antibióticos, que começou com a descoberta da penicilina por Alexander Fleming e seu subsequente uso generalizado em meados do século XX. Aos olhos do médico contemporâneo, essas lesões terciárias são raridades clínicas graças à eficácia dos tratamentos modernos.
A obra de Rivera nos transporta para uma época em que o aforismo médico “Uma noite com Vênus, uma vida inteira com Mercúrio” era uma verdade literal. Antes da penicilina, os tratamentos à base de metais pesados (mercúrio, bismuto) e, posteriormente, de arsenicais (Salvarsan), eram as únicas, embora tóxicas e insuficientes, barreiras contra a devastação sistêmica que o muralista retratou com maestria na anatomia de Cortés.

