Para Michelangelo Buonarroti, a mão não era simplesmente uma parte do corpo. Era o instrumento que comunicava o pensamento com a matéria. Em um de seus sonetos, afirmou que nenhuma ideia concebida pelo artista deixava de estar contida no bloco de mármore e que somente podia descobri-la «a mão que obedece ao intelecto». A frase resume toda uma concepção da escultura: a figura já existe dentro da pedra; o escultor deve libertá-la.
Mas aquela mão, capaz de revelar o Davi, o Moisés ou os escravos que parecem lutar para se desprender do mármore, começou a se deformar e a perder mobilidade durante as últimas décadas de sua vida.
Uma pesquisa de 2016 dedicou-se a estudar as mãos de Michelangelo em três imagens tardias do artista. A primeira é o retrato pintado por volta de 1535 por Jacopino del Conte (Figura 1, à esquerda), quando Michelangelo tinha aproximadamente sessenta anos. A segunda, realizada por volta de 1544 por Daniele da Volterra, amigo e colaborador do mestre, provavelmente deriva daquela obra. A terceira foi pintada por Pompeo Caccini em 1595, mais de trinta anos após a morte do escultor, mas parece ter tomado como modelo retratos anteriores.
Nas três imagens, a mão esquerda apresenta alterações semelhantes: espessamentos articulares, deformação na base do polegar e comprometimento das articulações metacarpofalângicas e interfalângicas do polegar e do indicador. A distribuição e o aspecto dessas lesões sugerem uma artropatia degenerativa, compatível com osteoartrose, e não uma doença inflamatória.
A conclusão contradiz parcialmente uma interpretação tradicional. Em sua abundante correspondência, Michelangelo referiu-se várias vezes a doenças que ele e seus contemporâneos chamavam de “gota”. Entretanto, no século XVI, o termo não designava exclusivamente a doença produzida pelo depósito de cristais de urato: podia ser utilizado de maneira imprecisa para diferentes formas de dor articular.
É provável que Michelangelo tenha sofrido verdadeiros episódios de gota, especialmente em um dos pés. Também sofreu de litíase urinária, com eliminação repetida de cálculos e pelo menos um episódio obstrutivo grave. Ambas as condições permitem suspeitar de algum distúrbio metabólico relacionado ao ácido úrico, embora não o comprovem. Em suas mãos, por outro lado, os retratos não mostram tofos nem sinais evidentes de inflamação. As proeminências articulares se parecem mais com nódulos osteoartrósicos do que com depósitos de gota.
O diagnóstico, naturalmente, não pode ser considerado definitivo. Os retratos não são radiografias e os pintores podiam modificar, estilizar ou exagerar as características de seus modelos. Além disso, duas das três imagens poderiam depender de uma mesma fonte visual. A iconografia médica permite formular hipóteses plausíveis, mas não substitui o exame clínico nem o estudo anatômico.
Transformar um detalhe pictórico em uma certeza diagnóstica seria exigir da arte uma precisão que ela nunca prometeu.
A hipótese da artrose, entretanto, é coerente com a vida do artista. Michelangelo trabalhou durante décadas segurando pesados martelos, empunhando cinzéis e transmitindo impactos repetidos ao mármore. A pressão intensa, a vibração e os movimentos repetitivos de preensão podem ter acelerado a deterioração de articulações já afetadas pela idade. Mais do que a causa única de sua doença, a escultura teria atuado como um formidável fator de sobrecarga.
As cartas fornecem outro indício. Em 1552, aos setenta e sete anos, Michelangelo confessou a seu sobrinho Lionardo que escrever lhe causava grande desconforto. No final de sua vida, precisava ditar boa parte de sua correspondência e mal conseguia assiná-la. A perda de mobilidade do polegar (fundamental para a oposição, a pinça e a escrita) poderia explicar essa dificuldade.
O extraordinário é que a incapacidade de escrever não significou o abandono da escultura. Michelangelo continuou trabalhando até poucos dias antes de sua morte, ocorrida em 18 de fevereiro de 1564, quando estava próximo de completar oitenta e nove anos. Segundo testemunhos contemporâneos, ainda golpeava o mármore seis dias antes de morrer.
Sua última obra foi a “Pietà Rondanini”. Ele a havia começado anos antes e voltou obsessivamente a ela, modificando-a, reduzindo-a e eliminando partes já esculpidas. Nessa escultura, as figuras de Cristo e da Virgem parecem emagrecer até se confundirem em uma única forma vertical. O mármore permanece áspero, incompleto, quase desmaterializado.
É tentador relacionar esse “non finito” à artrose do mestre: imaginar que as superfícies irregulares ou a crescente simplificação de suas figuras foram consequência de mãos enfraquecidas. Mas não há provas suficientes. A obra tardia de Michelangelo também responde a uma transformação espiritual e estética deliberada. A imperfeição material pode ter sido uma escolha, e não uma derrota técnica.
Existe, por outro lado, um paradoxo mais sólido. O mesmo trabalho que provavelmente contribuiu para o desgaste de suas articulações pode tê-lo ajudado a conservar sua função. A atividade constante manteve durante anos a força e a mobilidade de suas mãos, embora não estivesse isenta de dor. O mármore foi simultaneamente adversário, causa de sofrimento e forma de resistência.
A artrose acabou impedindo-o de escrever com desenvoltura, mas não conseguiu separar sua mão da pedra. Até o fim, aquela mão deformada continuou obedecendo ao intelecto. E continuou buscando, dentro do mármore, uma figura que Michelangelo já não conseguiria libertar por completo.
EPÍGRAFE
Figura 1: Retrato de Michelangelo Buonarroti. Jacopino del Conte (c. 1535) | Museu Casa Buonarroti, Florença, Itália.
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Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi
Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”