Arte e Medicina

A convalescença

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Na medicina, costumamos falar com desenvoltura sobre o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico. Muito menos sobre a convalescença. E, no entanto, é ali que acontece algo decisivo: não o combate aberto contra a doença, mas o lento e ambíguo retorno à vida.

María convalecienteJoaquín Sorolla entendeu isso com uma sensibilidade extraordinária em sua obra María convaleciente. O quadro retrata sua filha mais velha, María Clotilde, que adoeceu de tuberculose aos dezessete anos e se recuperou na propriedade La Angorilla, em El Pardo, entre o final de 1906 e o verão de 1907. Sorolla a pinta completamente envolta em um cobertor, com gola de pele e chapéu preto, apoiada contra um muro. Sua expressão é absorta, apagada, como se ainda não pertencesse totalmente ao mundo dos saudáveis. A cena transmite melancolia, mas não dramatismo: não mostra o clímax da doença, mas esse estado intermediário, incerto e silencioso, em que o corpo já não está vencido, embora ainda não tenha recuperado sua antiga soberania.

Isso é, precisamente, a convalescença. O termo vem do latim convalescentia: “recuperar as forças”. Designa o período que vai do fim da doença até a recuperação completa da saúde. Não é apenas a ausência de sintomas. É uma etapa de restauração gradual, na qual cessam os fenômenos essenciais do processo patológico, mas o organismo ainda não recuperou plenamente seu estado anterior. Às vezes consegue; outras, a convalescença deixa sequelas, limitações ou uma nova normalidade.

A medicina contemporânea, obcecada pela rapidez, relegou esse conceito. Importa a alta, não o depois. Importa liberar o leito, nem sempre compreender o ritmo real da recuperação. A convalescença é hoje um conceito pouco reconhecido, esquecido na prática diária, deslocado pela pressão assistencial, pela urgência social de retornar rapidamente ao trabalho e por uma cultura da imediaticidade que tolera mal a lentidão.

Por isso, o quadro de Sorolla é tão valioso. Porque devolve densidade humana a um tempo clínico que costumamos comprimir ou banalizar. María não aparece agonizante nem radiante: aparece frágil. Está viva, está melhor, mas ainda está saindo. E sair de uma doença nem sempre é um ato; muitas vezes é um processo. A convalescença tem algo de limiar: o paciente já não está onde estava, mas ainda não chegou completamente.

Há nessa pintura uma lição que a medicina não deveria perder. Curar não é apenas eliminar a doença. Também é acompanhar o restabelecimento, reconhecer seus tempos, aceitar sua vulnerabilidade e entender que entre a crise e a saúde existe um território próprio. Um território feito de fadiga, espera, fraqueza e esperança.

Sorolla, sem dizer uma única palavra, retratou isso magistralmente.


EPÍGRAFE

Figura 1: María convaleciente. Joaquín Sorolla, 1907. Museu de Belas Artes de Valência, Valência, Espanha.

Prof. Dr. Alfredo E. Buzzi

Professor Titular de Diagnóstico por Imagem, Universidade de Buenos Aires
Membro Honorário Internacional da Sociedade Paulista de Radiologia
O autor é editor da Revista “ALMA- Cultura y medicina”