Quando um paciente chega ao consultório com dor no peito, uma das perguntas mais importantes é também uma das mais difíceis de responder: o que está acontecendo nas suas artérias coronárias?
Essa pergunta acompanha a medicina há décadas e, felizmente, a maneira de respondê-la mudou.
A evolução da imagem cardiovascular trouxe novas possibilidades para a investigação da doença arterial coronariana. Entre elas, a angiotomografia coronariana ocupa hoje um papel de destaque por permitir, de forma não invasiva, uma avaliação detalhada das artérias que irrigam o coração.
Mais do que identificar estreitamentos, o exame permite visualizar placas de aterosclerose e ampliar a compreensão sobre a presença e a extensão da doença. Isso pode contribuir para uma avaliação mais precisa do paciente e para uma decisão clínica mais bem direcionada.
É uma mudança importante de perspectiva: em vez de esperar que a doença se manifeste de forma mais grave ou recorrer diretamente a um procedimento invasivo para esclarecer o diagnóstico, podemos, em pacientes adequadamente selecionados, obter informações anatômicas relevantes já nas etapas iniciais da investigação.
Isso não significa, naturalmente, que a angiotomografia deva substituir o cateterismo. O cateterismo cardíaco continua sendo fundamental em inúmeras situações e tem papel insubstituível quando há indicação diagnóstica ou terapêutica. A questão é utilizar cada ferramenta no momento certo, para o paciente certo.
E é justamente nesse contexto que uma discussão importante está acontecendo no Brasil.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) abriu a Consulta Pública nº 73/2026, que avalia a incorporação da angiotomografia coronariana como exame de primeira linha para pacientes sintomáticos, com probabilidade pré-teste baixa ou intermediária e suspeita de doença arterial coronariana estável. A consulta está aberta até 24 de agosto de 2026.
Uma oportunidade para o SUS
As evidências acumuladas nas últimas décadas, no Brasil e no mundo, reforçam o papel da angiotomografia na investigação da doença coronariana.
Um estudo publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, por exemplo, avaliou a custo-efetividade da angiotomografia como estratégia inicial para pacientes com dor torácica estável na saúde suplementar brasileira. A análise encontrou economia média de 1 mil reais por paciente no cenário estudado, além de projeções de redução de custos relacionados a infarto, hospitalizações e revascularização.
É importante ressaltar que esses dados econômicos dizem respeito à saúde suplementar e não representam diretamente uma estimativa de impacto para o SUS. Ainda assim, eles ajudam a ampliar a discussão: a avaliação de uma tecnologia não deve considerar apenas o custo de um exame, mas também toda a trajetória assistencial do paciente.
Para mim, como médico-radiologista e profissional que há duas décadas trabalha com imagem cardiovascular, essa discussão representa mais do que a avaliação de uma nova tecnologia. Ela representa uma oportunidade.
Uma oportunidade de aproximar o SUS dos avanços que já transformaram a medicina cardiovascular em diferentes partes do mundo. De aprimorar a jornada diagnóstica de pacientes com suspeita de doença coronariana. E, principalmente, de discutir acesso.
Afinal, não podemos falar em evolução da medicina sem falar em equidade.
Mais do que uma tecnologia, uma questão de acesso
Tecnologias capazes de oferecer diagnósticos mais precisos também precisam chegar aos pacientes que dependem do sistema público. A radiologia já demonstra que redes assistenciais, protocolos padronizados, transmissão digital de imagens e telerradiologia podem ampliar o acesso a exames especializados. Ferramentas de inteligência artificial também podem contribuir nesse processo.
No caso da doença coronariana, quanto mais cedo identificamos a doença e melhor caracterizamos o risco de cada paciente, maiores são as possibilidades de orientar prevenção, acompanhamento e tratamento adequados.
Por isso, essa consulta pública merece a atenção de toda a sociedade. Até 24 de agosto, profissionais de saúde, pacientes, familiares e cidadãos podem contribuir para uma decisão que considere diferentes perspectivas, experiências e evidências.
Como vice-presidente da SPR e médico que acompanha há anos a evolução da imagem cardiovascular, acredito que este é um momento importante para discutirmos como queremos diagnosticar e cuidar da doença coronariana no SUS.
A angiotomografia coronariana já mudou a forma como enxergamos as coronárias. Agora, temos a oportunidade de discutir como ampliar esse acesso aos pacientes brasileiros.
Te convido a participar da Consulta Pública nº 73/2026! A participação da sociedade também faz parte da construção de um SUS mais moderno, preciso e equânime.